Carta Aberta a Ana Abrunhosa

Senhora Presidente,
Num tempo em que a tempestade caiu sobre Coimbra sem pedir licença, quando o medo entrou pelas portas das casas e a incerteza se instalou nos rostos de quem nunca pensou viver dias assim, houve uma presença constante, firme, visível, incansável. A sua.
Não partilhamos o mesmo espaço ideológico. Nunca o escondi, nem o escondo agora. Mas há momentos na vida coletiva em que as bandeiras ficam pequenas diante da dimensão da responsabilidade. E este foi um desses momentos.
A senhora esteve lá.
Quando as águas subiram, quando as estradas fecharam, quando o telefone não parava e as famílias procuravam respostas, a sua voz foi estabilidade. A sua presença foi direção. A sua postura foi coragem.
Se havia mais a fazer? Talvez. Em qualquer crise haverá sempre o “talvez”. Mas há algo que ninguém pode negar, ninguém está verdadeiramente preparado para enfrentar a força bruta da natureza quando ela decide testar os nossos limites. Governa-se com planos, mas lidera-se com caráter. E caráter não se improvisa.
Nestes dias duros, Coimbra não viu partidos. Viu ação. Não viu discursos vazios. Viu trabalho. Não viu distância. Viu proximidade.
Valentia não é ausência de medo, é agir apesar dele. Bravura não é perfeição é não virar a cara quando tudo parece desabar. E a senhora não virou.
As pessoas lembrar-se-ão das sirenes, da chuva incessante, da angústia. Mas lembrar-se-ão também de quem esteve presente. De quem assumiu a linha da frente. De quem decidiu que, em vez de procurar culpados, era tempo de procurar soluções.
Num País tantas vezes cansado de divisões, é justo reconhecer quando alguém honra o cargo que ocupa com dedicação genuína às pessoas que serve. Hoje, esse reconhecimento é seu.
Que esta carta não seja vista como um gesto político, mas como um gesto de justiça. Porque quando a adversidade atinge uma cidade, o que nos salva não é a ideologia é a liderança.
Coimbra atravessará esta tempestade. Reconstruirá. Reerguer-se-á. E nessa história ficará também o registo da sua entrega nestes dias difíceis.
O respeito conquista-se. E o respeito, quando é merecido, deve ser dito em voz alta.
Com consideração sincera,
Mário Gonçalves